Dia Mundial de Combate à Dor: veja a entrevista com a especialista em dor, Dra. Alexandra Florez, médica do HSJN

Cena 1: Imagine um carro estacionado e, subitamente, um delinquente tenta roubar o rádio deste carro mas, o alarme dispara, o bandido foge e o motorista desliga o alarme.
O alarme é um alerta. O alerta de algum perigo, contudo, o motorista foi alertado e, além de afastar o perigo, desligou o alarme.
Essa história corresponde ao papel da dor na proteção do organismo: alertar sobre alguma anormalidade e, sanado o problema, ela cessa pois, já compriu sua missão, que é proteger o corpo.
Cena 2– outro carro foi estacionado e, por uma razão qualquer ou sem motivo aparente, o alarme começa a tocar. O motorista acode, mas nada de grave está ocorrendo, contudo, ele não consegue desligar o alarme.
Essa segunda história se equipara às dores crônicas. A dor surge e, simplesmente, nada a faz parar.
Resumo: a Ciência avançou muito, mas não explica tudo, a medicina progrediu bastante, mas, ainda “há males sem cura”. Vamos ao conteúdo da entrevista,uma verdadeira aula!
A Ciência avançou muito, mas não explica tudo, a medicina progrediu bastante, mas, ainda “há males sem cura”.
Dores x Dores Crônicas

Para falar um pouco deste tema, conversamos com a médica Alexandra Campos Florez, 34 anos, que trabalha no Hospital São João ( HSJN). Dra. Alexa, como é conhecida, atua na medicina há 13 anos, há 4 anos como anestesista ou anestesiologista e há 2 anos como especialista em dor.
O que chamou a nossa atenção é o fato de ser anestesista e “especialista em dor”. Ou seja, é uma jovem, porém, experiente profissional de medicina e pessoa adequada para falar sobre o tema “dor“.
Segue a entrevista:

1- Dr. Alexandra Florez, fale um pouco da sua profissão:
R- Me formei na Colômbia, em 2010, na Universidade Cooperativa da Colômbia em 2016 fiz a revalidação do meu título de médica no Brasil, na Universidade Federal Fluminense; em 2019 me formei como “médica anestesiologista” pelo Centro de Treinamento da Sociedade Brasileira de Anestesiologia, em Juiz de Fora (pelos hospitais Maternidade Terezinha de Jesus e Monte Sinai ); em 2021 recebi meu título de “especialista em dor” pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein.
2- Resumidamente, que é a dor?
R- A “Associação Internacional para o Estudo da Dor” define a dor como uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a danos reais ou potenciais nos tecidos. A mesma organização, com o apoio da Organização Mundial da Saúde, considera a dor crônica como a maior ameaça à qualidade de vida em todo o mundo, uma ameaça que aumenta paralelamente ao aumento da expectativa de vida.
3- Como citamos na introdução da entrevista, a dor é um alarme ou alerta, ou seja, um mecanismo de proteção do organismo que anuncia anormalidade. Quando ela passa a ser um problema?
R- A dor é uma sensação desagradável, com componente emocional desencadeado pelo sistema nervoso. É um problema quando prejudica tanto a vida familiar, como pessoal, profissional, social e financeira das pessoas afetadas.
4- Quais os tipos de dores catalogadas pela medicina e os tipos mais comuns de dores?
R- A dor pode ser aguda ou crônica, entre outras, sendo que esta última representa hoje em dia um grave problema de saúde pública, com significativos impactos na vida profissional,afetiva, familiar e social das pessoas acometidas por este mal.
Sendo assim:
Dor aguda: É a que ocorre em forte intensidade e, geralmente, em um período de tempo que pode variar de minutos a semanas. Costuma desaparecer quando a causa é devidamente diagnosticada e tratada, como cólica, dor de dente, contusões, entre outras.
Dor crônica: com duração de meses a anos, normalmente está associada a uma doença crônica ou a lesões tratadas previamente. São exemplos as dores causadas por câncer, por atrite, por esforço repetitivo, etc.
Dor recorrente: por mais que tenha curtos períodos de duração, mas se repete com frequência, podendo acompanhar o indivíduo ao longo de toda sua vida. A forma mais conhecida de dor recorrente é a enxaqueca.
Dor fantasma: é a dor que se sente em uma parte do corpo que foi removida. É comum que o paciente tenha esta dor logo após a cirurgia de amputação e o desconforto pode persistir por dias ou semanas.
Dor psicológica: além das dores físicas, é possível sentir dores psicológicas causadas por desequilíbrios emocionais. É o caso da tristeza, da ansiedade e do estresse, por exemplo. Em algumas situações, a dor psicológica pode ser sentida também no corpo, se convertendo em uma dor física.
5- Que aconselhamento clínico daria as pessoas que estão parecendo com alguns destes tipos de dores?
R- A desinformação é um problema, as pessoas têm que ter consciência de que não é normal viver com dor, que é um direito lutar por diagnóstico, tratamento e suporte adequado para evitar os impactos negativos das dores nas suas vidas.
As pessoas acometidas devem procurar ajuda médica, através de consultas e exames.
Os profissionais de saúde estão habilitados a diagnosticar e tratar a grande maioria das patologias dolorosas (à título de exemplo, todos os estudos epidemiológicos indicam que a dor crônica mais frequente é a lombalgia- as vulgares dores de costas).
Eles dispõem um vasto leque de opções terapêuticas, que vão desde os medicamentos analgésicos anti-inflamatórios não esteróides, como a aspirina, até aos opióides fortes como a morfina, ou outro tipo de tratamentos como a fisioterapia e outras terapêuticas complementares ( por exemplo, acupuntura e meditação).
Quando não é possível resolver o sintoma, temos a opção de acudir ao especialista em dor que vai fazer uma avaliação específica do tipo de dor e a causa para tentar eliminar ou diminuir a dor. Temos opções de tratamentos alternativos aos medicamentos de uso oral, intramuscular ou venoso.
O tratamento específico consiste na prescrição de medicamentos específicos usados na anestesia, bloqueios de terminações nervosas com infiltrações de anestésicos por meio de ultrassom guiado ou raio X e, até, encaminhamento para profissionais como psicólogos e fisioterapeutas, ortopedistas, geriatras entre outros.
6- E quanto ao estilo de vida. Quais recomendações você daria para quem precisa conviver com dores em seu dia a dia ?
R- Vamos lá:
a) Observe-se: pesquise sobre seu problema e saiba o que pode aliviar ou agravar a sua dor (como má alimentação, bebidas e sedentarismo). Não deixe a dor ficar insuportável para tratar Atenção para o próximo tópico!
b) Não pratique a automedicação: ao invés de acabar com o problema, há o risco de mascarar um problema grave e dificultar o seu diagnóstico. Além disso, tomar remédio sem orientação médica ou em quantidades inadequadas aumenta a probabilidade de efeitos colaterais.
c) Inspire e expire profundamente por alguns segundos: a técnica da respiração profunda ajuda a manter a dor sob controle. Exercícios de meditação também podem ajudar porque permitem controlar o aumento da frequência cardíaca e as reações do corpo, que entra em alerta com estresse. Feche os olhos e relaxe todos os músculos.
d- Se não houver recomendação médica em contrário, atividades físicas são importantíssimas, como caminhadas, ciclismo e alongamentos, por exemplo.
e)- Se você sofre de dor crônica, o especialista em dor é o profissional com experiência adequada. Ele pode fazer um diagnóstico mais preciso, considerando o que pode provocar ou agravar o quadro de dor e definir o melhor tratamento. Ele também pode te encaminhar para uma equipe multidisciplinar, que possa combater sua dor com variadas estratégias.
7- Por que escolheu essa profissão?
R- Foi depois de receber anestesia para um procedimento cirúrgico, foi uma experiência incrível para mim por que no momento que deitei na mesa de cirurgia eu me desliguei e só acordei na sala de recuperação já operada, sem dor, sem a sensação de ter passado pelo trauma de uma cirurgia.
Nesse momento eu decidi que gostaria de fazer isso para outras pessoas: facilitar a experiência desagradável de passar por um procedimento doloroso sem sentir a dor.
Eu escolhi me especializar em dor por que penso firmemente que ninguém merece viver com dor! A vida é linda demais para passá-la sentindo dor e viver isso como normal.
8- Mensagem Final:
R- A pessoa que sofre com dor crônica pode se sentir indefesa e fragilizada durante o processo da dor, e este é um dos motivos pelos quais se destaca a importância da saúde mental, física e social- o tratamento multidisciplinar.
No dia 17 de outubro, convidamos os pacientes a serem mais participativos no seu tratamento, esclareça suas dúvidas a cada consulta. Adquira mais conhecimento sobre o seu caso de dor e siga fielmente as recomendações sobre seu caso e as prescrições médicas.
O tratamento da dor é seu direito. Não negligencie a sua dor!

