Mais de 30 barragens na Zona da Mata estão na lista de fiscalização priorizada
Governo Federal determinou vistorias em estruturas que tem ‘Dano Potencial Associado’ alto; veja listagem.
Trinta e quatro barramentos para diferentes finalidades em cidades da Zona da Mata estão na lista divulgada pela Agência Nacional de Águas (ANA) para fiscalização imediata. A região já registrou dois rompimentos de barragens, em Cataguases, em 2003 e em Miraí, em 2007. Nos dois casos, não houve mortes, mas danos materiais em diferentes municípios.
De acordo com a ANA, as 34 barragens da lista foram enquadradas como Dano Potencial Associado (DPA) alto. O DPA refere-se o dano causado em caso de acidente ou rompimento e é classificado de acordo com as infraestruturas e populações localizadas abaixo da barragem. É um critério para determinar se uma barragem está submetida à Lei nº 12.334 de 2010.
É mais uma repercussão após rompimento da barragem da Vale no Córrego do Feijão, na última sexta-feira (25), em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. São 274 barragens em Minas Gerais das 3.386 a serem vistoriadas, de acordo com as duas resoluções publicadas pelo Conselho Ministerial de Supervisão de Respostas a Desastre do Governo Federal na terça (29).
O levantamento
Conforme a lista, a fiscalização imediata na região será em 27 hidrelétricas, em cinco contenções de resíduos de mineração e em duas contenções de resíduos industriais em 18 municípios: Juiz de Fora, Rio Preto, Leopoldina, Muriaé, Rio Pomba, Astolfo Dutra, Guarani, Santos Dumont, Matias Barbosa, Piau, Ervália, Guiricema, Além Paraíba, Chiador, Descoberto, Recreio, Miraí e Itamarati de Minas. (Confira abaixo a lista da região)
Além do DPA, o levantamento também aponta a Categoria de risco, que refere-se a aspectos da própria barragem que possam influenciar na possibilidade de ocorrência de acidente. É classificado quanto a risco alto, médio e baixo.
Das 34 barragens da região, apenas a hidrelétrica de Ituerê, em Rio Pomba, é classificada como categoria de risco médio, as demais são de risco baixo.
A responsabilidade de fiscalização será da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semad) no caso das contenções de resíduos industriais; da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para as hidrelétricas e da Agência Nacional de Mineração (ANM) para as contenções de resíduos de mineração.
O G1 e o MGTV entraram em contato com as empresas responsáveis pelos barramentos e os setores fiscalizadores. À medida que as respostas forem recebidas, a reportagem será atualizada. (Veja mais abaixo)
Entenda
Para se enquadrarem nos requisitos da Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB), as barragens devem ter:
- altura do maciço, contada do ponto mais baixo da fundação à crista, maior ou igual a 15m;
- capacidade total do reservatório maior ou igual a 3.000.000m³ (três milhões de metros cúbicos);
- reservatório que contenha resíduos perigosos conforme normas técnicas aplicáveis;
- categoria de dano potencial associado, médio ou alto, em termos econômicos, sociais, ambientais ou de perda de vidas humanas, conforme definido no art. 6º da Lei 12.334
Desde 2011, a Agência Nacional de Águas consolida o Relatório de Segurança de Barragens (RSB) a partir de informações disponibilizadas pelos órgãos responsáveis pela fiscalização de barragens, a depender de seu tipo de uso (produção de energia elétrica, contenção de rejeitos de mineração, disposição de resíduos industriais ou usos múltiplos da água). Conforme a agência, o RSB é um instrumento para dar transparência à situação das barragens no país.
Em todo o país, um total de 3.386 barramentos serão vistoriados por seus respectivos órgãos fiscalizadores. Deste universo, 824 estruturas estão sob a responsabilidade de órgãos federais fiscalizadores, sendo 91 delas da (ANA), 528 ligadas à Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e 205 estão sob a responsabilidade da Agência Nacional Mineração (ANM). Os demais empreendimentos são de responsabilidade dos estados. No total, o Brasil possui 43 agentes fiscalizadores.
Barragens que terão fiscalização priorizada na Zona da Mata e Vertentes
| Nome Barragem | Município | Uso Principal | Categoria Risco | Dano Principal Associado | Empreendedor | Órgão Fiscalizador |
| Barragem da Pedra | Juiz de Fora | Contenção de resíduos industriais | Baixo | Alto | Votorantim Metais Zinco S/A | Semad – MG |
| Barragem dos Peixes | Juiz de Fora | Contenção de resíduos industriais | Baixo | Alto | Votorantim Metais Zinco S/A | Semad – MG |
| Mello | Rio Preto | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Vale SA | ANEEL |
| Nova Maurício | Leopoldina | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Vale SA | ANEEL |
| Glória | Muriaé | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Vale SA | ANEEL |
| Ituerê | Rio Pomba | Hidrelétrica | Médio | Alto | Vale SA | ANEEL |
| Zé Tunin | Astolfo Dutra; Guarani | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Pequena Central Hidrelétrica (PCH) Zé Tunin SA | ANEEL |
| Anna Maria | Santos Dumont | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Água Clara Energética SA | ANEEL |
| Ivan Botelho III (Antiga Triunfo) | Astolfo Dutra | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Lagoa Azul Energética SA | ANEEL |
| Coronel Domiciano | Muriaé | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Cemig Geração e Transmissão SA | ANEEL |
| Joasal | Juiz de Fora | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Cemig Geração e Transmissão SA | ANEEL |
| Marmelos | Juiz de Fora | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Cemig Geração e Transmissão SA | ANEEL |
| Paciência | Matias Barbosa | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Cemig Geração e Transmissão SA | ANEEL |
| Piau | Piau | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Cemig Geração e Transmissão SA | ANEEL |
| Ervália | Ervália; Guiricema | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Cemig Geração e Transmissão SA | ANEEL |
| Simplício | Além Paraíba (MG); Sapucaia (RJ); Três Rios (RJ); Chiador (MG) | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Furnas Centrais Elétricas S/A. | ANEEL |
| Simplício | Além Paraíba (MG); Sapucaia (RJ); Três Rios (RJ); Chiador (MG) | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Furnas Centrais Elétricas S/A. | ANEEL |
| Simplício | Além Paraíba (MG); Sapucaia (RJ); Três Rios (RJ); Chiador (MG) | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Furnas Centrais Elétricas S/A. | ANEEL |
| Simplício | Além Paraíba (MG); Sapucaia (RJ); Três Rios (RJ); Chiador (MG) | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Furnas Centrais Elétricas S/A. | ANEEL |
| Simplício | Além Paraíba (MG); Sapucaia (RJ); Três Rios (RJ); Chiador (MG) | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Furnas Centrais Elétricas S/A. | ANEEL |
| Simplício | Além Paraíba (MG); Sapucaia (RJ); Três Rios (RJ); Chiador (MG) | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Furnas Centrais Elétricas S/A. | ANEEL |
| Simplício | Além Paraíba (MG); Sapucaia (RJ); Três Rios (RJ); Chiador (MG) | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Furnas Centrais Elétricas S/A. | ANEEL |
| Simplício | Além Paraíba (MG); Sapucaia (RJ); Três Rios (RJ); Chiador (MG) | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Furnas Centrais Elétricas S/A. | ANEEL |
| Simplício | Além Paraíba (MG); Sapucaia (RJ); Três Rios (RJ); Chiador (MG) | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Furnas Centrais Elétricas S/A. | ANEEL |
| Ivan Botelho I (Antiga Ponte) | Descoberto; Guarani | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Centrais Hidrelétricas Grapon S.A | ANEEL |
| Picada | Juiz de Fora | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Votorantim Metais Zinco S.A | ANEEL |
| Ormeo Junqueira Botelho (Antiga Cachoeira Encoberta) | Muriaé | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Rio Glória Energética S.A | ANEEL |
| Ivan Botelho II (Antiga Palestina) | Guarani | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Rio Pomba Energética S.A | ANEEL |
| Barra do Braúna | Recreio | Hidrelétrica | Baixo | Alto | Barra do Braúna Energética S.A. | ANEEL |
| Barragem Bom Jardim | Miraí | Contenção de rejeitos de mineração | Baixo | Alto | Bauminas | ANM |
| Itamarati de Minas | Itamarati de Minas | Contenção de rejeitos de mineração | Baixo | Alto | Companhia Brasileira de Alumínio | ANM |
| Itamarati de Minas | Itamarati de Minas | Contenção de rejeitos de mineração | Baixo | Alto | Companhia Brasileira de Alumínio | ANM |
| Miraí | Miraí | Contenção de rejeitos de mineração | Baixo | Alto | Companhia Brasileira de Alumínio | ANM |
| Miraí | Miraí | Contenção de rejeitos de mineração | Baixo | Alto | Companhia Brasileira de Alumínio | ANM |
O outro lado: fiscalização
A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) prevê fiscalizações em loco até maio em 130 barragens de usinas hidrelétricas. Na próxima terça-feira (5), está agendada uma reunião as Agências Reguladoras Estaduais em Brasília para definir como será a fiscalização.
Segundo a assessoria, a agência é responsável pela pela fiscalização de um total de 437 hidrelétricas que totalizam 616 barragens. As usinas restantes, que não estão na previsão para vistorias presenciais, oferecem menor risco, mas também passarão por monitoramentos da agência.
A nota enviada ao G1 destaca ainda que, em cumprimento às deliberações da Resolução do Conselho Ministerial de Supervisão de Respostas a Desastres, publicada na edição desta quinta (31) do Diário Oficial da União, a ANEEL vai exigir este ano atualização do Planos de Segurança de Barragem de todas as usinas que estão sob sua fiscalização, independentemente no nível de risco.
A Agência Nacional de Mineração (ANM) explicou que, por causa da tragédia em Brumadinho, a programação de vistoria está sendo revista, com diretrizes encaminhadas pela Gerência de Segurança de Barragens em Brasília. O objetivo é priorizar barragens com método construtivo à montante e DPA alto. No momento, a agência ainda não tem informações de quando realizará as vistorias nas referidas estruturas.
O G1 e o MGTV aguardam retorno da da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semad) que também atua na fiscalização nos barramentos na Zona da Mata.
O outro lado: empresas
O G1 não conseguiu contato com as Centrais Hidrelétricas Grapon, responsável pela hidrelétrica Ivan Botelho I em Descoberto e Guarani.
Já foi solicitado posicionamento das seguintes empresas:
- Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) Geração e Transmissão SA, que é responsável por cinco hidrelétricas: Joasal e Marmelos, em Juiz de Fora; Paciência em Matias Barbosa, Piau, em Piau e Ervália, em Ervália e Guiricema;
- Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), responsável pelas quatro barragens em Miraí e Itamarati de Minas.
Nesta quarta (30), autoridades de Muriaé, Leopoldina, Cataguases, Itamarati de Minas se reuniram com diretores da empresa. A empresa informou ao G1 que duas barragens em Itamarati de Minas e a de Miraí são monitoradas “diariamente, semanalmente e mensalmente e, posteriormente, encaminhados aos órgãos fiscalizadores; bem como das auditorias externas, conduzidas por uma empresa independente especializada e de competência reconhecida internacionalmente, que têm frequência mensal para os monitoramentos, controles e ações e semestral para avaliação geral da barragem”.
Segundo a CBA, a barragem em Miraí é de rejeito de mineração e, em Itamarati de Minas, uma das barragens é de rejeito de mineração e a outra de água limpa. Em termos de engenharia, as estruturas das barragens de Miraí e Itamarati de Minas, construídas à jusante, são mais seguras do que as barragens à montante, que utilizam o próprio rejeito na sua construção, como era a de Brumadinho.
- Bauminas, responsável pela Barragem Bom Jardim, em Miraí, de contenção de rejeitos de mineração.
Em 10 de janeiro de 2007 houve o rompimento da barragem São Francisco, na zona rural de Miraí, onde havia concentração de resíduos de bauxita. Não houve mortes, mas danos ambientais como inundação de trechos de áreas agricultáveis, mortandade de peixes e desabastecimento de água na vizinha Muriaé, na cidade de Laje do Muriaé (RJ) e nos distritos de Retiro e Comendador Venâncio, em Itaperuna (RJ). Meses antes, a barragem havia apresentado vazamento, mas foi controlado.
Em posicionamento enviado em 2015 ao G1, empresa Bauminas Mineração, antiga Mineração Rio Pomba Cataguases, responsável pela barragem em Miraí, garantiu que cumpriu tudo o que foi solicitado após os acidentes. A barragem São Francisco foi desativada.
- Cesbe S.A. Engenharia e Empreendimentos, responsável pela hidrelétrica Barragem do Braúna, em Recreio.
- Votorantim Metais Zinco SA., responsáveis pelas barragens da Pedra e do Peixe, para contenção de resíduos industriais e pela hidrelétrica de Picada, todas em Juiz de Fora.
- Furnas Centrais Elétricas, responsável pelas nove hidrelétricas de Simplício, em Além Paraíba e Chiador (MG), Sapucaia e Três Rios (RJ)
- Brookfield Energia Renovável Minas Gerais S.A, que está ligada às empresas que administram as hidrelétricas Ivan Botelho I, em Astolfo Dutra; Ivan Botelho II, em Guarani; Ormeo Junqueira Botelho, em Muriaé; Anna Maria, em Santos Dumont e a Pequena Central Hidrelétrica (PCH) Zé Tunin da hidrelétrica Zé Tunin, em Astolfo Dutra e Guarani.
- Vale S.A., responsável pelas hidrelétricas Mello, em Rio Preto; Nova Maurício, em Leopoldina; Glória em Muriaé e Ituerê em Rio Pomba.


