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Na linha de frente contra a Covid-19, profissionais de saúde em Juiz de Fora relatam angústia na rotina de trabalho

Diante do pavor de estar de frente com o coronavírus, trabalhadores da área ouvidos pelo G1 afirmam que o trabalho árduo e a notícia da morte de um colega de profissão, em decorrência da doença, têm acarretado distúrbios emocionais sem precedentes.

“Pode ter certeza, haverá um momento em que você vai pensar em desistir, mas continue caminhando”.

Foi esta a última mensagem enviada pelo técnico em enfermagem, Agnaldo do Nascimento, ao companheiro de trabalho, Leonardo Frossard, na última vez em que se falaram no dia 9 de abril.

Três dias depois, no dia 12, Agnaldo estava em estado grave numa Unidade de Terapia Intensiva (UTI) com suspeita de ter contraído o novo coronavírus. Ele morreu na madrugada do dia 22, em decorrência da Covid-19. Foi o primeiro profissional de saúde vitimado fatalmente pela doença em Juiz de Fora.

Amigos há 17 anos, trabalhavam juntos há quase oito, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Norte. E lá, há cerca de dois meses, perceberam que estavam no início de uma guerra sem precedentes na luta contra o novo coronavírus.

A batalha contra o inimigo invisível, que já dizimou mais milhares de pessoas em todo o mundo, levou prematuramente, Agnaldo, aos 41 anos, sem tempo de dar o último abraço no parceiro de trabalho.

Leonardo, que estava de férias na casa dos pais, em uma outra cidade do interior de Minas, não imaginou que aquele áudio com um conselho fosse o último a receber do amigo querido.

Na quinta-feira (9), quando trocaram mensagens pela última vez, Agnaldo contou que estava há três dias se sentindo mal, com muita dor no corpo e febre.

“Ele suspeitou que fosse dengue e me disse que faria o exame. Depois disso, ficou três dias sem dar notícias. Então, mandei uma mensagem de Páscoa, no domingo (12), mas ele não me retornou. Mais tarde, recebi um áudio da esposa dele me pedindo pra rezar, porque ele estava internado no CTI”, relembra o enfermeiro.

O medo de sair de casa para trabalhar e ser infectado pelo vírus, e também de voltar pra casa e, mesmo assintomático, transmitir o coronavírus para alguma familiar são dois componentes importantes que, diariamente, atormentam e tiram a tranquilidade de inúmeros profissionais de saúde em todo o mundo.

Diante do pavor de estar diante do vírus que não faz distinção de idade, raça, ou condição social, profissionais de saúde de Juiz de Fora, ouvidos pelo G1, foram unânimes ao afirmar que, além do estresse cotidiano, estar na linha de frente do enfrentamento ao coronavírus também tem acarretado distúrbio emocional sem precedentes.

“Esses números começam a ter nomes, e nomes de gente que vive com a gente. Isso assombra, isso machuca. Nos deixa muito atordoados. Da mesma forma que chegou à casa de um amigo, pode chegar à minha casa. Então, muda completamente a nossa forma de ver a doença, a nossa forma de ver essa epidemia”, refletiu Leonardo.

Morrer se modificou

“Eu trabalhei por mais de 16 anos com num hospital oncológico. A morte para mim era algo normal, porque me preparei para atuar nessa área. Minha rotina sempre foi acolher estes pacientes, seus familiares, dar conforto num momento difícil. Mas eu sabia que havia um tempo para que isso ocorresse. Mas hoje, a condição do morrer se modificou. Não se tem tempo pra despedidas, para preparar as pessoas para a partida,” explicou uma enfermeira de Juiz de Fora, que preferiu não ser identificada.

Em um dos plantões, ela atua na pediatria de um hospital público e, por falta de demandas pediátricas, foi transferida para o atendimento de porta de uma unidade referência em Juiz de Fora para atendimento às vítimas da Covid-19.

“Ao ser informada que iria para a linha de frente, não me dei conta do que vivenciaria. Mas, ao começar minhas atividades, fui tomada por um medo tão grande, que não dei conta. Num dos plantões, perdi das forças e acabei desmaiando de tanta ansiedade e medo de ser contaminada por pessoas, que chegavam a toda hora relatando possíveis sintomas da Covid-19,” explicou.

Um técnico em enfermagem que trabalha na UPA Norte, que também prefere não ser identificado, relembra que do carisma do colega e da dedicação enorme dele com todos os pacientes.

“Agnaldo foi um homem muito dedicado, comprometido com o trabalho e com a sua missão na luta diária a favor da vida. E, perdê-lo para o coronavírus me fez ver que somos nada. Estamos apenas nas mãos de Deus”, relatou ele, reforçando que sai de casa para trabalhar sempre com muito medo e pedindo proteção divina.

“As medidas de prevenção estão aí para serem feitas, mas ainda vemos muita gente pelas ruas, parecendo despreocupadas com coronavírus. Pessoas sem máscaras, pessoas nos bares, comércios de bairros abertos. Vejo gente aglomerada em barzinhos e lanchonetes se divertindo, como se nada as ameaçasse. Isso é assustador”.

Medo e insegurança

Auxiliar de enfermagem sofre com a rotina de medo no enfrentamento à Covid-19 — Foto: G1
Auxiliar de enfermagem sofre com a rotina de medo no enfrentamento à Covid-19 — Foto: G1

Uma outra profissional de saúde, também colega de trabalho de Agnaldo, recorda dos dias de fé e segurança que ele e os outros profissionais vivenciaram diante do anúncio da pandemia do novo coronavírus.

“Diante do vírus assustador, sempre nos confortávamos. Começávamos os plantões com a expectativa de que tudo seria tranquilo, nos desejávamos coisas boas. Sempre unidos e confiantes. Mas diante da perda do companheiro de trabalho, o ambiente que era preocupante, está ainda mais triste. O medo e a insegurança sempre nos ronda. Não sabemos onde esse inimigo invisível pode nos encontrar. É horrível não ter o direito de ir e vir”, contou sob anonimato.

Segundo ela, sempre que chega um paciente apresentando sintomas, vem logo à mente o pensamento de que pode ser um novo caso de Covid-19 para atender.

“Meu psicológico está abalado. Eu me sinto insegura e com medo, porque tenho família, preciso me cuidar para me proteger e também protegê-los. Eu me apego à fé, me cuido e me protejo. Não quero que essa contaminação ocorra com ninguém, estamos todos suscetíveis,” contou.

A filha da profissional de saúde, conta que a falta do calor humano transmitida por um contato físico como o abraço faz muita falta na hora de tentar acalentar a mãe.

“Aqui em casa, os filhos tiveram a oportunidade trabalhar em home office, ela não. Isso é muito estressante. Percebemos que nossa mãe está bem mais sensível. Fica mais tensa ao ouvir notícias sobre o avanço do coronavírus. Então, decidimos não assistir os noticiários quando ela está em casa. Sempre trocamos por algum filme, algo que seja leve e tranquilo. Além disso, tentamos distraí-la com assuntos alegres, com momentos felizes em família”, completou.

E, diante das queixas frequentes da mãe de que não estava se sentindo bem fisicamente, a filha conta que foi difícil lidar com os sintomas – que para a mãe poderiam ser de Covid-19, depois que ela foi informada que outras quatro colegas de profissão foram diagnosticadas com a doença. O temor, segundo a família, parece ter sido mesmo psicológico.

“Minha mãe fez o teste e o resultado foi negativo. Então a levamos numa consulta com um psiquiatra. Ele recomendou que ela fosse encaminhada a um profissional de psicologia para conseguir se fortalecer diante dessa luta diária. Agora, ela está fazendo terapia. E nossa esperança é que essa fase ruim passe logo,” finalizou a jovem.

Cabe a nós seguir viagem

Patrícia Teixeira é psicóloga e professora universitária — Foto: Patrícia Teixeira/Arquivo Pessoal
Patrícia Teixeira é psicóloga e professora universitária — Foto: Patrícia Teixeira/Arquivo Pessoal

Segundo a psicóloga e professora universitária, Patrícia Teixeira, vivemos um momento delicado, onde uma condição se impõe e sem pedir licença, descortina uma confusa configuração, nos impelindo ao afastamento social.

“Ao menos por hora, somos desautorizados de transitar na vida conforme havíamos estabelecido. Diante dessa condição, não há palavras ou significações totais que possam responder e aplacar o mal-estar que, de forma direta ou indireta, assola cada um de nós”, explicou.

“Recolhendo os efeitos dessa realidade, retomo um citação feita por Freud em um importante texto escrito em 1916, quando o mundo vivia o impacto da primeira grande Guerra Mundial. Freud fez alusão a um poema sobre navegadores antigos, que vivenciando a agitação do mar e os perigos da viagem carregavam consigo o seguinte lema “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Não é preciso viver na medida em que não há meios possíveis para garantir a vida de maneira precisa.”

Segundo ela, cabe a nós seguir viagem, afinal, navegar é preciso! Assim, somos convocados a encontrar, no interior de nossas vidas, as direções que nos permitirão estar a bordo, como também as condições que sustentarão nossas ancoragens.

“Sigo na aposta de que talvez, este seja um momento oportuno para interrogarmos nosso lugar no mundo, buscando saídas criativas para o nosso existir,” aconselhou Patrícia.

Fonte: G1 Zona da Mata
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Israel Malthik

Nasceu em São João Nepomuceno. É Técnico em Administração e Fotografia Artística. Foi fotógrafo da APCEF (Associação do Pessoal da Caixa Econômica Federal), freelancer em jornais como Estado de Minas e Agência Minas. Premiado por diversos clubes e grupos fotográficos. Atualmente é fotojornalista da Rádio Difusora de São João Nepomuceno. Israel Malthik também foi atuante, como fotógrafo, em editoriais de moda em grandes marcas da Zona da Mata Mineira. Atualmente além de ser o proprietário da Malthik Fotografia, realizando casamentos, batizados e eventos, é sócio-proprietário na empresa Cuidarte Home Care.

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